quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Um conto (segunda parte)

Meu namorado escreveu mais um parágrafo daquele conto misterioso que ele anda compondo. Tá aí. Juntei com a primeira parte que tinha postado uns dias anteriores.


"Seus olhos permaneciam fechados, mas os raios de sol que invadiam o quarto faziam toda sua órbita queimar. Já perdera a conta de quantas vezes havia pedido a Nana que comprasse umas cortinas. Ainda que apreciasse ir à Vila e fumar com os rapazes até que viesse a madrugada, talvez o seu maior prazer fosse dormir, ou simplesmente se deixar largado na cama no dia de domingo. Sabia que hoje, apenas hoje, era seu dia de imunidade ante a feroz e possessiva vontade daquela mulher de escravizá-lo.
Tentou abrir os olhos, já irritados pela claridade indesejada, e viu a velha estante, cuja poeira ele farejava de muito longe, e o rádio quebrado que o pai fizera questão que era ele quem deveria consertar. Seu quarto não abrigava muita mobília: além da cama de estrado grosso, deixava sempre uma cadeira de madeira desgastada que usava para colocar os poucos livros que comprava esporadicamente no sebo da Vila.

(...)Tampouco, porém, lhe invejava a vida do irmão, que desde os 21 anos mudara-se para a Vila e entregara-se aos prazeres carnais, ao vício e à luxúria. (...) Aquela vida indigna era sua única possibilidade, seu abrigo contra todos os medos do mundo.
(...) Não lhe interessava, definitivamente, as rixas e desordens que o irmão arranjava na Vila, no fundo ele se sentia grato por não mais ter de dividir o quarto com aquele ser animalesco, ignorante e mentiroso que por algum desastre genético era seu irmão."

Diz ele que já escreveu mais de uma págida, aproveitando sua falta de sono na noite passada. O conto, de uma maneira geral, é uma reflexão sobre a morte. Descreve a vida de um homem que sempre se sentiu desvalorizado pela própria família e que decide se matar para ver o que falarão dele postumamente. O grande mistério que atormenta o personagem principal é se isso será possível, isto é, se poderá ele saber as impressões que causou nas pessoas enquanto vivo. É, eu achei bem curioso...
Descobri que ele anda me mandando apenas uns frangalhos do que escreve. Por isso os '' (...) ". Chato...

Déh.

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