terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um registro

Existem fatos que não podem carecer de um registro, algo que os tornem eternos e independentes dos deslizes da memória. Hoje tive a oportunidade de presenciar e atuar em uma destas cenas peculiares, a qual teve por personagens principais apenas eu e meu irmão, Henrique.
Estávamos tomando café da tarde sob um pôr do sol tranquilo ( apesar das inúmeras manifestações de mau humor da minha mãe) quando reparei, subitamente, que meu irmão estava sem uma parte da sua sobrancelha. O tamanho da minha surpresa não me permitiu que eu me calasse. Na mesma hora gritei : " Rii ( é assim que eu o chamo ) você está sem uma parte da sua sobrancelha!!!. O coitado saiu a trotes pelo salão, com a mão sobre os olhos e exclamando pequenas falas do tipo '' não acredito " , " como isso foi acontecer?" enquanto não chegava ao banheiro. Eu infelizmente perdi a sua expressão no momento em que se olhou no espelho. Apenas ouvi outras exclamações semelhantes as citadas anteriormente.
Ao voltar para cozinha trazia no seu semblante a feição contaminada pela preocupação. Eu estava a gargalhadas, aproveitando o máximo daquela comédia. Ele me questionava como uma criança o que poderia fazer para disfaçar aquilo e o que tinha levado aquele pequeno tufo de pêlos a desaparecer.
Subimos correndo até o andar de cima da minha casa, aonde se encontrava o estojo de maquiagens da minha irmã. Em menos de 1 hora meu irmão teria que estar do outro lado da cidade para um ensaio rotineiro com a sua banda. Peguei aquelas ferramentas, encostei meu irmão na parede e comecei o trabalho, meio que não acreditando naquela cena inusitada. Misturei as cores de um lápis preto com um marrom claro e esfumei com uma pequena esponja presente na extremidade de um deles. Enquanto isso meu irmão se auto-perguntava se teria que se maquiar como uma menina todos os dias de manhã e quanto tempo duraria aquela falha. A maquiagem ficou ótima, o que trouxe um pouco de tranquilidade áquele adolescente desesperado. Tive ainda a idéia de sugerir que usasse boné até que seus pelinhos resolvessem crescer novamente. Ele não hesitou em correr para o cabide de seu quarto, escolhendo o que mais disfarçasse.
Depois de alguns minutos matutando na frente do espelho, se lembrou que raspou suas bochechas no último banho que tomara tentando tirar alguns cravos ( não entendi muito bem esse hábito ) e que em um possível deslize teria arrancado parte da sobrancelha. Rimos mais um pouco, porém baixo, já que meu pai tinha acabado de chegar do trabalho. A sua maior preocupação era se o pessoal da escola, da banda e até mesmo da nossa família descobriria algo. Uma bela recaída para alguém que nunca se importou com a opinião alheia e um belo exemplo de como toda e qualquer virtude é limitada.
Combinamos de maquiá-lo todo dia de manhã antes da aula e de guardar segredo sobre o fato, é claro. Segredinho entre irmãos.

Déh.

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